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Andreza Tibana
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Senhor, dai-me paciência!
A paciência é uma única dose de rum numa noite de frio. Doce, rasga o peito e aquece o corpo. Difícil é saber a hora de recorrer a essa dose mínima. Ninguém vê uma pessoa lutando para ser calmo. Lutando para não ser um animal. O único vislumbre está nos olhos. Quando os sentidos se apagam, o vermelho-sangue tinge a visão, o revés no estômago, é nesse momento a hora de tomar sua dose? Ou seria melhor deixar isso tudo e regar-se de pequenas doses o dia todo e a toda hora? Desequilibrado ou alcó... [ler mais]
O meu mundo
Gostaria de lhes apresentar o meu mundo. Um mundo não tão diferente do seu. Apenas com peculiaridades que não existem no seu modo de ver as coisas. No meu mundo as pessoas não falam, elas transmitem. No meu mundo não há olhos, há absorção. No meu mundo os cãezinhos são reis e os homens escravos. Nada no meu mundo é cinza, tudo é preto e branco. Se o coração se quebra, luzes de emergência saltam dos olhos. Se a alma se inunda de alegria os lábios se tornam vírus e se propagam por aí. Se a sa... [ler mais]
Com amor, Mona
Eu conheço bem as ruas da cidade. Já andei por muitos lugares. Nunca encontrei um lugar em que realmente pudesse me sentir em casa. Aliás, eu tinha uma casa, o mais próximo do que se pode chamar de lar. Mona cuidava de mim. Não era bonita, mas satisfazia bem as minhas necessidades. Costumava acordar cedo e ela pegava o jornal para mim. Limpava, cozinhava, fazia o almoço, assistia à televisão, e vez ou outra saía para o salão de beleza. No fundo eu acho que ela jamais seria linda, e mesmo as... [ler mais]
O gosto do chá de hortelã
Não existe tempestade, nem rumores de chuva. Não existe tormenta, nem sinais de vento ou brisa. Não existe calmaria, pois não existe o céu nem as nuvens. Existe um jazz gélido no calor da rumba. Existe o nada, onde o nada sobrevive. [ler mais]
Um olhar sobre o amor
Amar não é um objeto ou pessoa. Não é um anel ou colar. Não é contas pagas ou nome no testamento. Amar não é virtude ou culpa. Amar é dormir e acordar, dentro e fora de um sonho. Amar é pijama e leite condensado. Amar é sofá e viagem. Amar é velar o sono com ternura. Amar é saber os desejos e necessidades de um olhar. Amar é ser feliz por um momento inesquecível. Mesmo que seja o olhar cansado do outro se fechando de sono. Amar é dar o mundo. Amar é receber de braços abertos a melancolia de p... [ler mais]
Bolinhos de chuva
Faço das palavras um bolo, não de aniversário, cheio de enfeites e confeitos, mas bolinhos de chuva, salpicados com açúcar de confeiteiro e uma boa xícara de café numa tarde serena para acordar. [ler mais]
Rumo ao céu
Saiu de casa sem intenção de sair. Não tomou o habitual café, nem trocou as meias sujas. Saiu sem rumo, sem olhar para trás e sem cigarros. Caía um véu leve de chuva sem gosto e uma brisa de olhar sem ver. Saiu sem destino e sem coração. Atravessou ruas em passos retos e olhava ao redor como quem pedia ajuda em vão. Sabia que chorava, pois a água que caía nos lábios era salgada e triste. Saiu sem propósito nem alma. Era um desses dias de desalento moroso, uma culpa latente e dissoluta. Quais... [ler mais]
Pão e Circo
Não quero o digerível semi-pronto ou o pronto em três minutos. Quero o orgânico preparado com tempo e temperinhos sem aditivos fast-food mercadolizador e conservador. Não gosto de conservas. Quero o ato e o manifesto juntos como irmãos camaradas. Quero a liberdade cultural em feiras livres a cada esquina Prefiro o sujinho natural ao esterelizado plural. Não quero pão, quero salada com mistura de grãos. Não quero circo, odeio palhaços, quero a diversão das palavras conscientes Quero o bolo, o ... [ler mais]
A arte de desenhar
Quando eu era criança eu desenhava estórias de príncipes e princesas, pais e filhos, fazendas e casas, enfim, tudo o que povoava a minha imaginação. Desenhava com qualquer coisa que tinha nas mãos, e isso deixava minha mãe louquinha da vida comigo. Era o meu modo de fazer o mundo. Crianças são boas em mudar o mundo. Daí virei adolescente, e não queria mais mudar o mundo, queria que o mundo mudasse por mim. E como todos os adolescentes pensam que são donos do universo, foi um tanto frustrante ... [ler mais]
O vôo
O silêncio a tortura. Em uma manhã perfeitamente quente e azul, tudo está fora do lugar. São xícaras, pratos, roupas, sapatos, bolsas, cinzeiros e garrafas. A desordem remete ao que ela não vê por baixo das coisas. Como pássaros que ignoram as minhocas simplesmente por não terem fome. São levados pelo leve vento pra longe sem se importar em lembrar o caminho de volta depois. A paz machuca. Tanta paz assim é sinal de trevas mais além. Como se trevas fosse o caminho lógico da serenidade. Para c... [ler mais]
Os ovos
Quando eu era pequena minha mãe fazia bolos de festa, naquela época não existia essa pasta americana, então tudo era feito com glacê e modelados com bonequinhos de plástico. Lembro de ficar no balcão da cozinha esperando ela terminar de bater a cobertura. Era costume meu, também, ajuda-la colocando a medida de açúcar na xícara ou quebrando com cuidado os ovos. De vez em quando os ovos se quebravam e estavam podres. Mamãe me ensinou a separa-los em uma xícara antes de misturar com a massa. Nun... [ler mais]
Vida
Vida linear, absorta, amorfa, insossa, Sabor sem gosto de uma brisa sem frescor, É assim de lado, apagado, mastigado, Não desafia, não vence, não sofre, não sente, Rotina, burocracia, hierarquia e constrição, Palavras fracas reunidas em dez passos de uma cartilha vulgar, Um dia de cada vez, uma vida para todos os dias, Sem ditadores, auditores, coordenadores, opressores, proprietários, Democracia, máquina, cartão express, Mídia, informação, combinação, alienação, O som, o toque, o cheiro, o g... [ler mais] |
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