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A Ampulheta Sem Fim - Capítulo 2

 

Capítulo 2

– Ai, não! Fim de sexta sem uma gata é ruim... Não é não, Zé?

Erik não se conformava. Estava tudo certinho para encontrar Liz, pegar um cinema, jantarem juntos e acabar a noite em ótima companhia. Bom, teria de se contentar com Zé, seu amigo das horas solitárias, além de ótimo zagueiro do time de coração de Erik.

– Zé, nem é sexta...

– E amanhã você trabalha, por acaso?

Erik não respondeu, estava pensativo. A semana tinha sido durta porém dura, apesar de que Erik detestava que as coisas ficassem muito paradas. Agitação, notícias quentes e muitas fotos: esse era o trabalho de Erik. Na segunda tinha ficado praticamente o tempo todo na redação, parecia que nada iria acontecer de emocionante. Quando estava para dormir de tanto tédio, finalmente apareceu nova chance de acompanhar seu mentor em uma reportagem policial. As fotos do tiroteio final no alto do morro dos desaparecidos tinham ficado ótimas.

De modo que Erik sabia que não haveria nada melhor que beber um pouco e relaxar, para poder aproveitar o fim-de-semana prolongado a frente. Claro que ficaria muitas vezes melhor se passasse a quinta e a sexta-feira com a Liz.

– No sábado você encontra a Liz, cara. Toma mais uma... – Zé ia servindo o copo de Erik, mas foi interrompido, Erik puxou o copo de lado. A bebida amarela respingou na mesa, mas Zé puxou a garrafa a tempo.

– Pára, Zé. Está quente essa coisa! Olha, sei lá, a Liz me incomoda mesmo. – E, virando-se na cadeira: – Garçom! Hei! Traz uma gelada, puxa vida!

Zé era baixo e muito troncudo, um dos melhores defensores de seu time de futebol. Erik e ele eram amigos desde pequenos, brincavam juntos e freqüentavam muito a casa um do outro. Apesar de Zé ser mais velho do que Erik em cinco anos, a altura e jovialidade do desportista fazia-o parecer que tinha os mesmos vinte e três anos de seu amigo. Zé na verdade se chamava Eduardo, tinha recebido o apelido de Pâmela. Aconteceu assim: certa vez, antes de os pais de Erik morrerem, Pâmela foi visitar seu primo. Eduardo estava com ele, ensaiando para uma peça da escola. Pámela, nos seus dezesseis anos, adolescente, se divertia incomodando o primo. Ao ver uma das crianças vestida de urso, com o de um programa infantil famoso na época, logo soltou: “Ah! Erik Zé Ursão!!! Que gracinha...” Mas era o Eduardo. Pâmela, claro, ficou vermelha, mas Erik ria até chorar. A diversão à custa de seu amigo durou um mês e rendeu o apelido para o resto da vida... Ainda hoje Erik se diverte, às vezes, recontando a história.

Lembrando disso Erik deu um risinho de lado, enquanto Eduardo se arrumava em sua cadeira, olhando para o copo vazio. Erik lembrou-se de que Eduardo tinha uma queda por sua prima desde aquela vez do urso, mas isso o lembrou de Liz, o que fez seu rosto escurecer novamente.

Eduardo olhou de volta para o amigo. Melhor mudar de assunto, pensou.

– OK, OK, vamos falar do jogo amanhã. – Eduardo aproximou-se da mesa, encarando o amigo, num sorriso de malandro: – Ou melhor, de depois do jogo... Já está tudo no esquema, você termina de enviar suas fotos, eu vou saindo do banho, me arrumo e te espero no carro. Às oito a gente tem sinuca marcada com a Bete e a Cris!!!

A resposta que Eduardo esperava de seu amigo era o conhecido olhar maroto, sorriso torto e uma das sobrancelhas erguidas. Ao invés disso, Erik suspirou, passando as mãos no rosto, como se o lavasse após levantar de um pesado sono. Respondeu:

– Não vai dar, tenho de arrumar as fotos e colocar na rede logo depois do jogo, senão perco um dinheirão. – Zé (ou Eduardo, como agora Erik começava a chamá-lo em seus pensamentos) olhava incrédulo, mas Erik deu de ombros: – As pessoas vão querer acessar logo que a partida acabar. Se eu demorar ninguém vai aparecer por lá e daí meus patrocinadores não vão querer colocar propaganda no meu sítio.

Erik pegou o copo com um resto de bebida quente e sorveu, assim mesmo, olhando através de Eduardo. Fez uma careta e franziu o cenho, enquanto seu amigo retrucava inconformado.

– Cara, você está é querendo fugir das garotas. Essa Liz te pegou mesmo, hein? Manda as fotos para o sítio do jeito que der, depois você melhora, dá os retoques. Afinal você é ótimo fotógrafo, as fotos nunca saem ruins.

Erik abanou as mãos em um gesto vago.

– Valeu irmão, mas tenho de ir em casa de qualquer modo para enviar as fotos. Minha prima ainda não fez as mudanças que eu pedi. Daí, acho que já vou ficar por lá, estou a fim de assistir a uns vídeos antes de ir pra cama.

Como o garçom demorava em trazer outra garrafa com bebida gelada, o tédio de Erik se transformou em impaciência. Levantou de repente, com o rosto fechado. Eduardo arregalou os olhos com o gesto súbito de Erik, mas logo entendeu seu amigo. Eduardo tentava rapidamente pensar em algo para animá-lo.

– Garçom! – Chamou Erik abanando uma das mãos – Traz a conta!

Erik sentou-se novamente. Eduardo piscou os olhos e balançou a cabeça em desaprovação, falando ao amigo:

– Cara, você está com o astral muito baixo mesmo. Vamos pagar e me acompanha que eu sei de algo que vai te animar!

Saíram caminhando pela rua, que, apesar do avançado da hora, ainda estava apinhada de pessoas e veículos. Era a área noturna da cidade: bares, restaurantes, danceterias... Casais, solteiros e grupos de amigos – não interessava o público, o bairro do Macuco era o lugar para se divertir na noite da grande cidade.

A noite estava fria. Uma chuva fina e inconstante caía, suficiente para umedecer os cabelos, mas não chegava a molhar as pessoas que passavam por ali. Os veículos, quase parados no tráfego intenso do bairro, eventualmente acionavam os limpadores para retirar a água dos vidros.

Erik conhecia bem aquelas ruas. As noites de sexta-feira e sábado normalmente contavam com a presença dele e de Eduardo, ou indo ao boliche nos desafios do pessoal da redação contra o pessoal do time de futebol; ou quando queriam paquerar as meninas que também passeavam por lá; ou, como naquela noite, quando os dois amigos queriam apenas conversar enquanto comiam ou bebiam algo.

Os dois já seguiam a um passo médio há algum tempo, mas sem falarem palavra. Erik quebrou o silêncio.

– Então, Zé... Qual é o tal esquema que vai me animar? Não vai dizer que é o Café Touro’s, acho que você já viu que não quero encontrar as garotas...

Eduardo abriu os braços e gesticulou, interrompendo Erik.

– Não, não! Já entendi, cara. Você está caidinho mesmo pela Li...

Dessa vez foi Erik que interrompeu:

– Hei! Para com isso! Eu só não estou num fim-de-semana muito bom para paquerar, ok?!

– Tudo bem, tudo bem, entendi, cara. Relaxa. Não é no Touro’s, não. Você vai ver... – Eduardo fez ar de mistério, erguendo ambas sobrancelhas umas três vezes. Não disse mais nada, apenas indicou uma porta na rua.

Erik olhou a porta de cima a baixo, surpreso.

– Zé, essa é a porta da sua casa!

– Não é o que você está pensando, doce de coco.

Erik deu uma gargalhada e empurrou o amigo; este, com reflexos de atleta, equilibrou-se rapidamente, revidando o ataque. Erik não teve a mesma sorte de Eduardo e os degraus à porta da casa do amigo não ajudaram muito: acabou por levar um tombo! Tentou se segurar, mas a chuva fina fazia com tudo ficasse escorregadio. Não teve jeito: foi ao chão sentando-se duramente em um dos degraus!

– Ah! Cara, você não presta! – disse, abanando a cabeça querendo parecer bravo, mas começando a sorrir.

Eduardo se equilibrava para não cair, pois dobrava o corpo dando gargalhadas. Estendeu uma das mãos para Erik, ainda rindo alto. Respirou fundo, enxugando o canto dos olhos com a outra mão.

– Ah, são seus olhos. Acho que você só fala isso para bajular e tentar ganhar algo dos coitados dos seus amigos!

Os dois amigos riram mais alguns minutos, parados ali fora, se apoiando nas paredes e na amurada da pequena escada de três degraus que levava à porta do prédio onde Eduardo morava. Finalmente Erik indagou, ainda respirando ofegante das gargalhadas:

– Bom, Zé, me diga o que você quer com tudo isso, qual é o grande lance?

– Cara, acertou na mosca... O lance é GRANDE mesmo!!!

Eduardo deu um passo a frente e abriu a porta de casa em um gesto amplo. Em uma parede, do lado oposto à porta, Erik, com o queixo caído e olhos esbugalhados, pode ver uma grande tela de umas cento e cinquênta polegadas!

– Erik, meu caro, te apresento a minha mais nova aquisição para as noites de jogatinas “garota não entra”! Uma telona da melhor imagem atualmente disponível e a última versão do jogo de luta mais matador e sangrento de todos os tempos! Com controles super interativos!

Erik, com um sorriso de orelha a orelha, virou-se para o amigo e anunciou, batendo e então esfregando as mãos:

– Traz os petiscos e a bebida que hoje você vai tomar uma surra daquelas!

***

Já era a madrugada de quinta-feira do feriado quando Erik abriu a porta do prédio onde ficava seu pequeno apartamento. Olhou o céu: já não chuvia mais e as estrelas estava bem visíveis, assim como a lua. Iria fazer um dia bem quente! Havia pego um taxi para voltar, apesar da insistência de Eduardo em lhe dar carona. Mas depois de ganhar quase todas partidas de Eduardo e de os dois terem bebido um pouco, Erik achou melhor deixar seu amigo ir descansar. Além de não ser uma boa idéia dirigir, tinha também o jogo no dia seguinte (ou hoje mais tarde, pensou).

O apartamento era muito simples e funcional. Tinha uma sala-quarto onde Erik tinha uma mesa com seu computador na parede maior, perpendicular à janela oposta a porta; uma estante com livros e caixas de revistas ao lado da mesa, na mesma parede; e uma cama simples de solteiro na paredce oposta. Uma cozinha pequena, onde Erik tinha um fogão de duas bocas apoiado no balcão ao lada da pia; um pequeno frigobar abaixo do balcão e um armário pequeno acima da pia; contava também com uma mesa dobrável na parede oposta à pia. Atravessando o corredorzinho da cozinha Erik contava com um banheiro minúsculo, mas que tinha uma ótima ducha, quente e forte.

Jogou suas roupas na cabeceira da cama e caminhou nú até o banheiro. A janela estava aberta, mas aquela hora da noite certamente ninguém o enxergaria, ainda mais com as luzes desligadas – se bem que o luar incidia em cheio na sala, projetando uma sombra comprida de Erik. Mas mesmo se a lua não fosse cheia, não corria risco de tropeçar em nada: sabia onde tudo ficava. Apreciava o escuro, talvez isso e seu chuveiro quente fossem a maneira de Erik compensar a vida agitada que tinha (e gostava de ter!). Aqueles minutos de hidro-massagem era uma das poucas ocasiões em que ficava mais pensativo e introspecto.

Pensou no que Eduardo havia lhe falado, sobre ele estar evitando as garotas por estar apaixonado por Liz. Sim, havia algo mesmo que estava encomodando Erik... Agora, relaxando com a água morna, Erik percebia que não era Liz. Talvez fosse uma vontade de ter alguém com quem se preocupar e que se preocupasse com ele. Ou não... Esses pontos não eram realmente preenchidos pelo relacionamento que estava levando com Liz. Não que ela não ligasse para ele dizendo ter saudades, ou que não compartilhassem momentos gostosos juntos... mas realmente não havia uma entimidade maior entre os dois.

O que realmente incomodava Erik era uma vontade que sentia crescer, paradocialmente à vida que levava, de simplemente parar e olhar. Uma vontade de apenas contemplar as coisas de longe: queria ver tanto calmaria quanto agitação, mas não queria participar – talvez ser um mero expectador por uns tempos para apreciar e entender de fora, olhando para o Universo como se fosse a tela gigante de seu amigo, no jogo de luta  Ou melhor: (talvez estivesse chegando no ponto da questão que não queria deixá-lo em paz) o que desejava mesmo era que de parar de se sentir levado por tudo, pois, por mais que corresse e fosse dinâmico, sempre lhe parecia que o Universo que o controlava em um jogo da mais pura adrenalina, porém ele mesmo não podia ter o controle. Por mais que corresse para passar a frente das coisas a sua volta, ele era o bonequinho na tela, o avatar dos desejos de alguém.

Não ser levado pela vida... Talvez correr não fosse a resposta para o que queria, mas era o jeito dele. Por isso sentia a necessidade de uma âncora. Alguém que lhe ajudasse a sentir e contemplar. Liz não era essa pessoa. Mas também não eram todas as outras garotas de sempre.

Ou talvez a água quente e o sono incrível que agora se apoderara dele estivessem nublando seu raciocínio e o deixando sentimental demais.

Desligou a água, não se enxugou direito e deixou-se cair na cama.

 

romance fantasia prosa infanto-juvenil
Publicado em 02/06/2009 15:14
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