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A Ampulheta Sem Fim - Capítulo 1
A Ampulheta
∞Sem Fim ∞
Rodrigo Macedo de Azevedo
Capítulo 1
O tempo passa mesmo? Ou será que nós passamos por ele e não paramos porque não sabemos ou porque simplesmente estamos sempre querendo chegar a algum lugar? Cientistas já mostraram que o tempo e o espaço podem ser um só. Quem sabe, na quietude da alma, possamos parar a nós mesmos em um ponto do espaço-tempo e, ali parados, descansar.
Pâmela vinha devaneando tais questões durante toda viagem. Naquela segunda-feira, apesar de sentir a cabeça pesada, não conseguiu dormir no ônibus fretado. Tinha de pegar aquela condução todos os dias de trabalho para ir da cidade interiorana onde ela morava até a capital. Culpava pela insônia o vizinho de poltrona, que era um tanto folgado mesmo e ficava esbarrando os braços nela. Mas a verdade é que sua mente se preocupava tanto em querer que tudo parasse logo que só conseguia acelerar mais ainda sua consciência e, por conseguinte, acabar com as possibilidades de sono.
Tirou os tapa-olhos com certa violência, segurando-se para não suspirar com muita força e atrair a atenção dos outros passageiros. Passou sua mão esquerda pelos lisos cabelos castanho-claros, arrumando um pouco da bagunça deixada pelo elástico dos tapa-olhos. Colocou seus óculos e olhou o relógio: ainda eram oito horas e trinta minutos da manhã. Tinha acordado às cinco horas para poder tomar um café decente e chegar a tempo no ponto do fretado, porém ainda faltava meia hora para chegar ao trabalho. Abriu a cortina e espiou pelo vidro. Ainda estavam parados na rodovia. As quatro pistas que chegavam à enorme cidade estavam tomadas por carros, caminhões e ônibus. Péssimo! Com esse ritmo não chegariam às nove horas, como de costume. Com certeza havia algum acidente na estrada ou nas grandes avenidas que margeavam o rio que percorria a capital.
Resolveu adiantar trabalho, pegou o computador de sua maleta e o acomodou em seu colo, conectando o cabo do aparelho de acesso móvel à rede mundial. Nesse instante o vizinho de poltrona falou de repente, o que provocou um pequeno susto em Pâmela, pois a moça achava que ele estivesse dormindo até aquele momento.
– Ah! Conectando-se na rede mundial, hein! Eu trabalho no ramo. Mas tô vendo que esse aparelho daí é da concorrente. Não é ruim, não, ficar assim pendurado para fora esses aparelhos com cabinho?
Pâmela virou-se, encarando o sujeito. Era baixinho e relativamente gordo, usava uma barba bem delineada. A moça pensou até que ele pudesse ser simpático, mas no momento ela não queria saber de bate-papo. Voltou o olhar para o computador, respondendo ao rapaz:
– Oi? Ah, desculpe, eu estou aqui preocupada com o tempo, digo, com a hora do trabalho. Parece que vamos atrasar um pouco hoje. – A voz de Pâmela era normalmente suave e doce, mas cansada e aborrecida como estava, falava quase sussurrando, forçando-se a parecer serena.
O rapaz era insistente já que prosseguiu, elevando um pouco a voz. Parecia empolgado com o assunto.
– É, segunda-feira é braba mesmo. Mas e aí, está gostando dessa caixinha dependurada? Estamos lançando uma placa nova que se conecta à rede mundial em alta velocidade, não está interessada? Ela é pequenininha e não fica pendurada via um cabinho, vai acoplada ao computador.
Pâmela apenas virou-se e disse, sorrindo:
– Não, obrigada, esta daqui atende ao que eu preciso, não vou pagar por enquanto por essas novas. Os planos de assinatura são mais caros. – nisso a moça compenetrou-se novamente em seu trabalho, visivelmente dispensando a conversa.
Alguns segundos se passaram, antes que o vizinho de Pâmela continuasse:
– Puxa, mas eu acho um saco esse modelo aí. Tive uma e acabei quebrando meu computador porque o cabinho agarrou e eu não vi.
– É, corre-se esse risco! – Pâmela deu sorriso forçado, sem se virar, erguendo as sobrancelhas. Não agüentava mais a pessoa. Ele continuava falando, mas para o alívio de Pâmela, uma pessoa na poltrona do outro lado começou a puxar conversa com seu vizinho:
– Cara, você não me arranja uma dessas placas na faixa, não? A gente já se conhece a um tempão, você sabe que eu arranjo tudo que você pede...
– Eu sabia, estava demorando! Eu consigo garantir uma para você antes que saia na loja, a procura está absurda. Mas sem essa de fazer preço mais barato, meu, você sabe que eu...
Nesse ponto Pâmela nem ouvia a conversa ao seu lado e lia atentamente seu correio eletrônico. O primo de Pâmela estava pedindo nova atualização para o sítio que ele mantinha na rede, com notícias e informações variadas. Uma espécie de diário pessoal com jornalismo independente. Puxa, por que Erik não fazia isso ele mesmo? Hoje em dia é tão fácil usar todos os tipos de recursos e as ferramentas na própria rede dispensavam um especialista. Erik argumentava que queria seu sítio diferente dos outros, totalmente personalizado e feito sob medida. Pâmela achava que ele era um folgado, isso sim.
Porém Pâmela se divertia com o sítio do primo, pois podia experimentar todo o tipo de novidade louca com os últimos recursos tecnológicos. Além do mais, ela o tinha como o irmão mais novo e essa era praticamente toda a sua família. Havia seu pai, mas a cidade para onde ele havia ido morar após a morte da mãe de Pâmela ficava em outro estado, muito distante de onde morava. Engraçado: o velho era lingüista, mas era de difícil comunicação. Detestava computadores e redes de informação, tinha até mesmo aversão ao bom e velho telefone.
Contudo, naquela semana ela estava ultra-atarefada. Havia voltado de suas férias na semana anterior e ainda não havia recuperado o trabalho acumulado.
Respondeu o seguinte:
Para: Erik dos Santos <erik.obom@hgemail.com>
Assunto: Re: priminha maravilha!
Erik,
Achei as idéias para o seu sítio ótimas, mas o trabalho está pesado mesmo. Cheguei da viagem na semana passada e tenho quilos de coisas para fazer, tive de ficar trabalhando no sábado. Estou lendo sua mensagem só agora, no domingo eu peguei uns filmes para assistir, nem quis saber de computador. Mas prometo que mais tarde eu dou uma olhada nisso, OK? Ou no fim-de-semana, aproveitando o feriadão.
Falando nisso, vou emendar na sexta do feriado e pretendo desanuviar um pouco. Se tiver algo em mente me avise. Só na quinta de noite que não, já combinei de sair com as garotas.
Beijo
Pam
----- Mensagem original ----
De: Erik dos Santos <erik.obom@hgemail.com>
Para: Pâmela Costa <Pamela.Costa@NEHConsultancy.com>
Assunto: priminha maravilha!
Pam, querida priminha!
O sítio de notícias do meu colega na redação é o maior barato. Muito bacana! A gente estava no trânsito parado, indo cobrir os depoimentos daquele caso de assassinato sangrento de que andam falando tanto, quando um acidente de moto aconteceu bem na nossa fuça. Me senti o maior “foca” mesmo, só vi o Roger mandando bala no celular, atualizando o sítio dele em tempo real, e eu tentando anotar tudo a mão para colocar na rede mais tarde.
Pô, priminha, dá uma renovada no meu sítio, vai. Quero esses recursos todos! Prometo pagar um passeio legal no fim-de-semana, podemos ir todos (você chama suas amigas, é claro!) :-)
Beijocas!
Pâmela prosseguiu lendo suas outras mensagens, respondendo o que podia antes de chegar a seu ponto de descida. Depois ainda tinha de caminhar duas quadras até chegar ao prédio onde ficava a consultoria para a qual trabalhava. A sua baia ficava em um canto do vigésimo andar daquele edifício, um dos vários que haviam por ali. Não reclamava da empresa. Era de pequeno porte e não tinha todas aquelas intrigas e conspirações corporativas que presenciou nas multinacionais por que passara antes de chegar à New Enterprise Horizons Consultancy. Aceitara a oferta de emprego justamente para experimentar o trabalho em empresas menores e também pelo aumento de quase cinqüenta por cento em relação ao seu salário anterior. Porém achava uma grande falta de respeito a terem contratado para um projeto em um cliente em sua cidade sem avisarem que o tal projeto seria transferido alguns meses depois para o escritório da capital. Agora, se quisesse fugir da rotina de passar cinco a seis horas por dia dentro de um ônibus fretado, teria que atualizar seu currículo e novamente procurar emprego em outra empresa.
Saiu do elevador, cumprimentando seus colegas. Já estavam todos trabalhando em seus lugares, eram quase dez horas da manhã. Sentou-se em seu lugar e conectou cuidadosamente o computador no adaptador de estação de trabalho.
Abriu a tela.
Várias horas ainda a separavam de sua volta para casa, naquele mesmo fretado.
***
– Então, Pâmela, você não nos terminou de contar o que você viu nas suas férias. Está tão calada desde que voltou... – Rita levou mais um garfo de peito de frango e salada e olhou para Pâmela, aguardando a resposta. Rita era ruiva e tinha olhos azuis bem clarinhos, mas quando ficava curiosa, parecia que os olhos arregalados ficavam da cor de violetas claras. Ficou encarando a amiga, esperando pela resposta com um sorriso maroto.
Após alguns segundos Pâmela, terminando de mastigar, respondeu, suspirando:
– Foi ótimo, já estou com saudades de onde passei. Fiz um trecho histórico, mas tinha muita natureza além dos museus e igrejas velhas. Cada lugar lindo, cada cachoeira... Ah! Se eu pudesse, ficava por lá. Ou pelo menos ficava até cansar! Eu estou cansada é de tanto trabalhar para não poder usufruir quase nada. Você acredita que a Andressa não fez nada do meu trabalho, deixou tudo acumulado?
– Acredito sim. Ela não fazia nada do que se pedia direito. Ela foi parar na sua área depois de ser descartada em dois projetos antes. Já vai tarde...
Pâmela a essa altura estava com raiva por lembrar de seu trabalho acumulado e da causa do mesmo. Abocanhou outra garfada de seu cappeletti e continuou falando, inconformada. Andressa deveria é ter sido demitida, mas na verdade ela havia pedido para sair. Aceitara oferta em outra empresa, com salário maior, para ser gerente de projetos. Enquanto isso Pâmela acumulava os papéis de gerente e designer das soluções e produtos que desenvolvia: portais e sítios virtuais de compras de vários clientes da NEH Consultancy.
Pâmela ainda reclamava, quando Rita falou:
– Vamos nessa, Pam. Já são quase duas da tarde! Você é praticamente muda, mas quando está com raiva desanda a falar, hein!
– Não estou com raiva – Pâmela retrucou – apenas com um leve instinto assassino...
Naquela tarde, enquanto esperava o sítio que estava desenvolvendo ser carregado em ambiente de testes, ficou na copa sozinha com seu chá, pensativa. Lembrou-se das cidades por onde ela havia passado nas férias, os caminhos e caminhadas que fizera e as serras e canyons que havia contemplado. Ficou divagando, pensando em como o tempo era estranho: as coisas boas pareciam sempre estar no passado enquanto o presente se apresentava constantemente amargo. Acabou caindo no sono, apoiada na mesinha da copa.
Ele de novo estava lá. Na pequena pousada que Pâmela tinha escolhido como a preferida aquele belíssimo animal já havia aparecido em seus sonhos. Parecia um cervo dos campos, como os que ela havia visto nos cerrados que visitara. Contudo, o animal do sonho era maior e seu pêlo pardo brilhava como uma lâmpada de mercúrio. Falou em uma voz grave e profunda, ainda assim acolhedora.
“Pâmela. Você está cansada. Encontre a Ampulheta. Aceite minha oferta, tome o Tempo em suas mãos. Somente assim poderá descansar em qualquer lugar que queira estar! Todas estas maravilhas podem estar a seu alcance e dispor para sempre. Pegue a Ampulheta e pare suas areias!”
Pâmela movia intensamente os olhos de um lado para outro. “Mas onde eu encontro essa ampulheta? Como ela é? Responda!”
“Encontre-a, Pâmela, encontre-a!”
– Acorda, Pâmela, acorda! Se o Rodolfo pega você aqui, você está encrencada!
Rita balançou a amiga até que Pâmela acordou, girando os olhos em suas órbitas. Com um esforço, levantou-se e agradeceu à amiga, apoiando-se levemente nos ombros de Rita.
– Puxa! Amiga... Se não é você me acordar... Acho que vou lavar meu rosto. – E acrescentou, forçando-se a se concentrar no trabalho – o sítio já terminou de carregar? Precisamos testar e arrumar todos os problemas antes do feriado!
***
As coisas não fluíam como Pâmela queria, mesmo com a ajuda de Rita, que era uma excelente profissional, além de amiga. Ela era formada em física e astrofísica, mas não deixava nada a dever para outros profissionais de computação e informática.
Os dias da curta semana passaram-se como a segunda-feira: corridos, cansativos e com o serviço parecendo mais acumular do que ser resolvido.
Finalmente havia chegado a quarta-feira. O feriado era somente na quinta-feira, mas não adiantaria trabalhar na sexta-feira. Estava programada manutenção na rede elétrica do prédio. Pâmela dirigia-se para o ponto onde esperava o fretado. Tropeçou nas obras da calçada, em reformas, quando levantou a cabeça e se assustou com um menino negro, que lhe gritou, bem em frente a seu rosto:
– A sinhazinha num pode fazer isso! Mas vai fazer, eu sei... Já aconteceu, num é, a sinhazinha inda num sabe. Sinhazinha tem que socorrer nóis!
– Menino! – Pâmela já ia empurrar o menino para longe, num ato automático, quando uma senhora, aparentando muita idade, segurou sua mão e disse, muito gentilmente:
– Não faça isso, querida. Veja: o coitado tem somente uma perna! – E virando-se para o menino: – Tudo tem seu tempo, você sabe.
Pâmela virou-se para falar com a senhora, puxando o braço de volta junto ao corpo, mas a velha havia sumido. Estava já escuro àquela hora no outono e muitas pessoas passavam depressa por ela. Assim, deu de ombros e correu para o ponto. O ônibus já estava encostando, quase o perdeu.
Naquela noite adormeceu rapidamente, mas não sonhou com o belo cervo nem com a tal ampulheta que deveria encontrar. Sonhou, entretanto, que estava em sua baia na empresa e que procurava a ampulheta em seu computador. De repente, estendeu seus braços em um gesto robótico e acessou seus dados por uma interface interativa, como se pudesse entrar pela tela do aparelho. Navegava por imagens, documentos e planilhas, flutuando por brilhantes céus permeados de ilhas onde se localizavam as informações. Fazia programas de agentes inteligentes para percorrer a rede e corria com eles por estradas de alta velocidade. Entrou em uma tenda grande dentro de um templo onde estava uma linda moça de traços finos e curvilíneos, vestida como uma deusa. Ela tateava parecendo cega, apesar de usar óculos de lentes grossas e armação pesada. Pâmela então perguntou sobre a ampulheta ao que considerava ser um oráculo. Este parecia falar e apontar para o próprio computador de Pâmela, que agora flutuava e girava vagarosamente na tenda em que estavam. Porém Pâmela não podia ouvir a lindíssima moça e não conseguia entender seus gestos.
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