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Medusa UrbanaMedusa Urbana.

A noite cai ainda sob sons e cacofonias urbanas. A cidade ainda em movimento em alguns pontos mais iluminados. Bares, boates, cinemas, puteiros. A vida urbana ainda pulsa irritantemente. Nos finais de semanas é pior, muito pior. Porque a noite envolve tudo com o seu negro manto, liberta Lillit e todos os seus filhos, e assim a cidade não dorme. É uma festa quase ininterrupta que só acaba de verdade na madrugada da segunda-feira.São dias de escassez e hibernação involuntária.E quando teima em sair para caçar em algum destes três dias, sempre, sempre, se mete em alguma história da qual não gostaria de figurar.Hoje, por exemplo, é um dia em que deveria ficar entocada. Mas está ansiosa demais para se resignar a manter-se quieta. Necessita da sua alimentação noturna, hoje.Levanta-se de um salto determinante. Com o impulso os cachos dos cabelos se soltam maleáveis e sonoros, os sibilos dos seus cachos indicam o seu grau de animosidade em saber que se trata de um sábado.  Alguns pontos da cidade devem ser definitivamente evitados. -         Sabá. É um dia tão perigoso quanto a Sexta-feira.Dizia enquanto batia o pó da calça jeans muito surrada. Com rasgões e manchas em quase todo o tecido azul desbotado.-         Mas todos os dias têm as suas particularidades. O resto bota-se na conta do destino.Botou as lentes de contato azuis. Suas prediletas. E olhou-se segura para um pedaço de espelho que guardava debaixo de uma pedra de cerâmica rente a parede esquerda do pequeníssimo cômodo onde vive absolutamente só. Nem mesmo insetos tinham lugar ali. Nem ratos. Nada. Apenas ela e seus pequenos tesouros. Uma caixinha de prata onde guardava os pares de lentes de contato de várias cores adquiridas facilmente. Um pedaço de espelho seguramente pequeno. Uma manta quente para os dias frios, que nos dias quentes servia de colchonete. Seus preciosos livros antigos. E mais nada.Apreciava o silêncio repousante da solidão. Nenhum som a não ser pequenos ruídos, murmúrios vindos do lado do rio, do que sobrou das folhagens da antiga mata.

Nascera ali. Tinha sido abandonada ali ainda recém-nascida quando a mãe - e todos que vieram olha-la - morreram petrificados. Desde sempre soube intuitivamente que nascera condenada a não se olhar jamais em qualquer coisa que refletisse seus olhos, ou teria o mesmo fim. Até que um dia descobriu as lentes de contato que facilitaram até mesmo as suas caçadas.Alimentava-se de pequenos répteis e roedores. Ovos de qualquer tipo de animal ovíparo.Antes das lentes, era difícil ter que se alimentar de olhos fechados, mesmo que depois da primeira infância tenha aprendido a apenas não olhar o alimento.  Caçar às cegas era muito mais difícil, então passou a primeira parte da sua vida alimentando-se basicamente de ovos. Guardou o espelho no seu lugar secreto. Ela passou as mãos em volta do corpo coberto por uma camiseta de malha preta muito esgarçada que deixava à mostra suas axilas peludas, seus braços nus, tão brancos que deixavam a cor preta desbotada da camiseta parecer ainda nítida. O colo totalmente exposto. Nenhum adorno. Nenhuma conotação de vaidade, e, no entanto, os cabelos negros serpenteavam sua cabeça em cachos vivos e sonoros, que só se aquietavam em silêncio quando ela colocava as lentes de contato. Podia então admira-los os movimentos ondulantes que tornavam seus caracóis tão soltos quanto belos. Seus cachos eram a sua única vaidade, e sua primeira arma. A outra, os olhos. Saiu do cômodo. Olhou para o céu. Muitas estrelas e uma lua quarto crescente.  -         Menos mal. Um misticismo a menos do qual se precaver além do Sabá.Pensou satisfeita.Caminhou por uma trilha escorregadia que a levava até dentro de uma enorme manilha de esgoto que desembocava na coluna de uma ponte. Seguiu pela margem do rio, com as botas atolando um pouco na lama escura e fétida.  Aprendera esse caminho ainda criança, e era perfeitamente seguro.  Qualquer um que a seguiu até ali achou seu absoluto fim instantaneamente. Nunca sentiu nenhuma emoção nisso. Apenas aprendeu a evitar que acontecesse. Nem sempre as coisas saiam como ela planejava, mas...Preferia as ruas estreitas. Becos com lixos amontoados. Era ali que encontrava seus suculentos alimentos movimentando-se numa algazarra bizarra. Ratos. De vez em quando, um gato novinho. Davam mais trabalho, os gatinhos, mas eram bem mais saborosos. Carne macia. Sangue mais limpo. Couro menos asqueroso. Estes ela preferia levar para saborear em casa.     Mais um sábado perigoso. As ruas muito movimentadas. Andava mais próxima da escória, rejeitada por uma sociedade globalizada.  Por eles passava desapercebida.  De vez em quando alguém tentava uma aproximação. Dependendo do humor e da noite, às vezes ela até aceitava. Mas não tinha amigos. Evitava laços afetivos quaisquer que fossem. Nada de nomes, datas, endereços. Nada que vinculasse um retorno. Sem retornos. Podia passar anos evitando cruzar uma única viela se ali tivesse se travado algum tipo de confronto ou contacto casual. Temia qualquer tipo de invasão à sua vida nem um pouco comum. Era só e aprendera a fazer disso um benéfico protetor. Como um escudo invisível essa solidão a protegia de quase tudo. Algumas coisas eram simplesmente inevitáveis. Saindo de mais uma boa refeição avistou um grupo de pivetes sentados dividindo o que parecia ser a primeira refeição do dia. Estavam esfomeados. Comiam vorazmente, metiam as mãos dentro de uma quentinha já toda dilacerada, fazendo um barulhinho chato de alumínio sendo amassado a cada punhado de comida que era retirado. A cola dentro dos frascos de desodorantes ou garrafinhas de água mineral, enfiados dentro das camisetas na altura do queixo, ou no cós das bermudas, outros aguardando no chão próximo ao dono. Era uma festa e ela resolveu ficar à espreita, apenas observando. Gostava de apreciar esses pequenos momentos de saciedade entre as pessoas. Eram pessoas apenas. Ali, fazendo parte daquele cenário social exclusivo das ruas das grandes metrópoles. Uma aberração social como tantas outras. Achava interessante, parecia uma confraria ante-social. Já estava retirando-se quando foi ofuscada pelas luzes dos farois de um carro que entrou na ruela silenciosamente, determinado a surpreender e encurralar quem ali estivesse. No exato momento em que ela começara a andar em direção a saída o carro parou, e de dentro quatro homens saíram apontando as armas na direção dos pivetes, gritando.-         Vocês dois aí, pra dentro do carro agora!-         Que foi que a gente fez? Pergunta um dos pivetes ameaçados.     (…)Um dos homens a viu, e gritou: -         Você aí. Paradinha. Parou enfurecida. Não queria estar ali, muito menos se meter naquilo. Mas já que foi convidada a ficar...  Imperceptivelmente rápida, retirou as lentes e as guardou na mao. Quando levantou a cabeça seus cachos sibilaram. -         Você quem pediu querido.-         Vire-se para cá e nem mais um passo. Ainda de cabeça baixa, girou nos calcanhares sem fazer o menor ruído. -         Olhe para mim, vamos! Antes mesmo de levantar a cabeça, os seus lábios já esboçavam um irônico sorriso de obediência. E quando fitou o homem que lhe dava a ordem, seus olhos eram duas chamas vermelhas que emitiam raios petrificantes.  Os cachos agora tinham vida própria e nas pontas pequenas cabecinhas mostravam línguas finíssimas emitindo sibilos venenosos.Os outros homens olharam para trás atirando, e ela apenas os fitou. Os meninos fugiram em disparada. Mas um se escondeu atrás de um tapume jogado sobre um resto de construção abandonada. E assistiu, incrédulo e fascinado aquela cena terrificante.  Os homens do Esquadrão da Morte, um a um, virarem estátuas de pedra e em seguida desintegrar-se em pó.  Depois, aquela mulher que ele nunca tinha visto por aqueles lados, e que continuava paradinha onde estava, olhou para os lados  e antes de começar a se sair, afastando a poeira com uma das maos…  Então ele resolveu agradecer e saber quem era aquela super-heroína que parecia ter saído da televisão, que parecia mesmo uma visão. Não podia deixar de chegar perto e tocar nela, pra ver se era de verdade ou se era viajem dele. - Hei, moça espe... Surpreendida ela olhou antes de recolocar as lentes.- Idiota!  Falava para um pequeno entulho de areia que se misturava ao vento fazendo parte da poeira formada no meio daquela ruela.Entrou no carro, colocou as lentes, olhou no retrovisor, brincou com os cachos que – como em resposta satisfeita - ainda não tinham silenciado totalmente.  - Vamos passar o resto da noite passeando. Quem sabe uma pequena viajem noturna, num Sabá interessante.  Fim.          

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Publicado em 08/08/2007 15:49
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Este é um texto de
Anna Lee
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