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SONHOS DE PAPEL
SONHOS DE PAPEL
(Rita Costa & André L. Soares – 18.05.07 – R. Janeiro/RJ – Guarapari/ES)
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Avelino caminha apressado em direção ao ponto, após outro dia de trabalho. Estava quase no horário do ônibus que o conduzia – todo dia, ida e volta – até em casa. Morava distante do centro. Cerca de hora e meia. Dera sorte... servente de limpeza há quase um ano, na empresa de telefonia. Antes, dependia de biscates que lhe arrumassem... e mal dava pra fazer feira. Ponto cheio... bom sinal. A condução ainda não passara. O dia foi duro. As costas doíam. Mal se agüentava em pé. Encostou-se na banca de jornal. Outros, também cansados, disputavam onde se amparar. Olhos fixos ao nada, Avelino sofria, de antemão, com a rotina do trajeto. De repente, em meio a pontas de cigarro espalhadas pelo cimento rachado da calçada, um panfleto colorido e brilhante, desperta sua atenção. Abaixa-se e pega sem timidez.
Era propaganda de apartamento luxuoso. Com área de lazer, suítes, sol da manhã, frente para o mar. Suspirou fundo. Aquilo sim era morar. Sequer olhava as informações sobre financiamento. Longe de ter pensamento de homem acostumado a viver amontoado em barraco, onde mal cabiam duas camas, permitiu-se sonhar pelas gravuras, baseado apenas em seu direito à esperança. Já podia ver-se acordando e respirando o ar marinho; sentando-se para o saudável e farto café da manhã. Desses que a ‘dona encrenca’ – apelido brincalhão que dera à Maria, companheira de luta –, dizia ser corriqueiro na casa da patroa. Cabiam ali, no retangular pedaço de papel, todos os sonhos que pensara ser possível à família. Anos morando na cidade grande e ainda não se acostumara. Às vezes a violência e a miséria pareciam tão mais cruéis que a seca do sertão de onde vieram, fugidos da fome. Avelino sonhava abstraído de todos ao redor. Visualizava, nas cores vivas do anúncio, os brinquedos, no aconchegante quarto dos meninos. Pelas manhãs os levaria e os buscaria na escola, enquanto a esposa relaxaria à beira da piscina. Podia sentir o som do carro subindo a rampa da garagem. Foi quando ouviu forte barulho de motor e, antes de se dar conta que havia perdido o ônibus, o vento arrebatou o papel de sua mão, levando pra longe também seus sonhos. De volta à realidade, sentiu que a cabeça passou a doer. Alarme biológico a lembrar do aluguel, atrasado uma semana.
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