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duas solidões
Pois bem, eu fiquei sozinho. Isso é lá jeito de começar uma história? Como se começa uma história? Pois bem, fiquei sozinho e mal, muito mal. Não estou falando de amor, mas de hábito, acomodação e duas solidões misturadas e confundindo-se uma com a outra. Lá fora, era domingo. Aqui, no meu quarto, eu acabava de acordar e tentava me desvencilhar de babas e remelas, quando o telefone tocou.
Era uma gravação da empresa telefônica da qual me recuso a fazer merchandising, e, por isso, não direi o nome. Minha conta estava atrasada, assim como minha vida, o ônibus pra Cabo Frio no último feriado e a mediocridade do normal. Tecnicamente, uma conta atrasada era reprovável. Na minha vida, fazia muito sentido e era bastante verossímil. Mas a regra é clara: eles fornecem enquanto você paga.
Júlia esteve por perto nos últimos cinco anos, até anteontem. As coisas andavam lentas, mornas. Nossa relação era um grande molusco pseudópode que se arrastava por um mundo de possibilidades, ilusões, bundas e carências. Estávamos presos a nada, mas era tudo o que nós tínhamos. Falo em meu nome, ignorem a primeira pessoa do plural. Eu, com muito esforço, mal chego a singular.
Continuemos, enfim. Provavelmente, Júlia está prestes a conhecer alguém melhor e menos real do que eu. Depois de tanto tempo de convivência, qualquer um se torna real, logo, pior. Do que estou falando? Eu também não quero a realidade. Na minha cama, alguns milhões de ácaros devoram as últimas células mortas de Júlia sob o lençol. Afinal de contas, todo ácaro sabe, principalmente os de biblioteca, mais letrados, que é pra frente que se anda. Mas ela vai conhecer alguém, que irá aparecer de repente. Falará o que ela vai querer ouvir, naquela hora, bêbada, rindo de qualquer piada boba. E suas amigas estarão enlouquecidas e também vão pressioná-la, no banheiro, todas querendo compartilhar a frustração de uma foda mal dada, num banheiro de boate, e o silêncio esquecido e completo de um homem que só queria gozar dentro de alguém. E que não vai ligar. Sou eu quem vai ligar, mas eu não sirvo, me tornei real demais. Eu sou palpável, não caibo em sonhos. Peido, arroto, fico bêbado e durmo de calça jeans.
Acordo de ressaca e calça jeans, naquele mesmo domingo de antes. Durante muito tempo me esforcei para não confirmar as teorias sobre mim. Todos que me conhecem gostam de dizer: “Mas você sempre foi assim” ou “Esse comentário é a sua cara”. Eu não sabia, mas era, a essa altura, o maior imitador de mim mesmo. E vivia confirmando teorias sobre mim. Júlia estava farta das minhas teorias, da sua experiência comigo e da minha consagração como grande imitador de mim mesmo. Eu não sabia ser parcial, frio, normal, compreensivo. As palavras não me agüentavam e saíam à força pela minha boca. Às vezes eu as tentava catar pelo chão, espalhadas, feias e cheias de dor. Mas era tarde, as pessoas já as conheciam. A maioria era velha conhecida de Júlia, que queria o que todo mundo quer: um pouco de ilusão travestida de esperança, fácil, insinuante, encontrável em qualquer esquina, não aquelas palavras que viviam saltando da minha boca e se espalhando pelo chão.
A essa altura, o sol se punha na linha do horizonte. Júlia devia estar na praia, no colo de um surfista sequelado desses de piada. E não é que estaria sorrindo, superfeliz por se sentir tão viva, tão irreal e diferente do que estava acostumada? Nos acostumamos com aquele “amor”, e ficamos tristes quando ele perde esse nome. Quatro letras, duas pessoas e duas solidões diferentes, mas bem parecidas.
De que é feita a saudade? Quantos suspiros, insônias, desesperos, doideiras, confusões, constituem a saudade? Sorrisos amarelos, orgulhos que são engolidos provocando má-digestão. Vários fingi-que-não-vi, outros tantos de qualquer coisa com qualquer um, só pra não bater esse vazio acachapante, esse nada que pode nos acontecer de repente, a qualquer um.
Inventei Elisa. Isso mesmo, um belo dia me cansei da simulação absurda da dor e da saudade de um amor entre aspas. Estava num bar, cheio de razão e cerveja na idéia, no meio de um discurso inflamado sobre a coisa mais importante do mundo, quando engasguei. Recomposto, perdi o fio da meada e nada mais importava. Elisa me olhava e se aproximava devagar. Vinha falar com uma das pessoas da minha mesa, a namorada entediada de um conhecido. Disse três frases, deu dois sorrisos, não sem antes me colocar no bolso de trás da sua calça. Essa noite fui embora feliz da vida, quietinho, no bolso de trás de sua calça.
Ah, o outro dia. Acredita se eu disser que ainda era domingo? O melhor disso tudo é não ter que trabalhar. Em vez de tentar entender, ficava na minha. Historicamente, sempre me dei mal tentando entender as coisas, era melhor me conformar com o destino e seguir assinando tudo sem ler. Tentei ligar para um número qualquer, que poderia ser o de Elisa. Tentei 2.764 combinações diferentes, ouvi grandes esporros, afinal de contas, era domingo de manhã para todos. Encontrei duas Elisas, outras, não a minha. Peraí, minha?!
Não havia isso. Eu não sei o que me aconteceu. Ninguém sabe direito o que aconteceu, mas para mim isso fazia alguma diferença. Na dúvida, enchi a cara e contei com a falta de lógica em vigor; amanhã seria domingo.
Não deu outra, domingo. Fui até a rua sem escovar os dentes e lavar o rosto por motivos políticos não muito claros nem mesmo para mim. Tudo que faço tem motivação política, pelo menos pra mim. Na rua tudo corria normal, famílias, atropelamentos, as meninas com a saia da moda, o sol queimando lá em cima. Um mendigo me pediu dinheiro, mas eu não tinha. Como queria muito ajudar, lhe dei um vale-esmola de um dinheiro que eu não tinha e segui adiante. Sentia fome, estava há horas sem comer.
Passei pelo mendigo de novo, perguntei que dia era aquele.
— Ih, sei não, meu filho.
Pra que eu queria saber?
Querendo saber ou não, eu já sabia. Não tinha escolha, só Júlia. O estrago da solidão me desintegrava, estaria ela se divertindo? Solta? Feliz? Tentei ligar novamente, mas hoje era domingo, ela estava de plantão. Ela nunca atendia o celular no plantão. Mas se ontem também foi domingo e anteontem também, o que esperar de amanhã senão outro dia mesmo-dia, mais um domingo a se passar, dormindo. O telefone tocou novamente, e não foi na música do Jorge Ben, mas aqui na realidade do meu quarto que Júlia não quis mais. Era a empresa telefônica botando seus robozinhos para trabalhar em pleno domingo. “Isso não se faz nem com uma máquina”, penso, mecanicamente. A gravação pedia dinheiro, mas não ameaçava a ninguém, não me chantageava, menos mal. Se algum dia chegássemos a uma segunda-feira, meu telefone ficaria mudo, muito embora eu permanecesse falando. Basicamente merda, mas ainda falando. Como vocês bem sabem, o importante é competir.
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